8 de abril de 2010

A arquitetura centenária de Laguna*

*Reportagem produzida em 2005. Decidi postá-la pela atualidade da pauta. Também porque sou admiradora da história e da beleza de Laguna.


Praça República Juliana. A esquerda monumento à Anita Garibaldi, ao fundo o Museu que leva o mesmo nome, antiga Casa da Câmara e Cadeia


As características arquitetônicas de Laguna e sua importância histórica foram fatores preponderantes para o tombamento do Centro Histórica da cidade. O município foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), na época, chamado SPHAN, em 1986. O movimento foi iniciado por um grupo de arquitetos, historiadores, intelectuais e moradores da cidade que assistiam à derrubada de prédios com mais de três séculos e carregados de características arquitetônicas peculiares.

Desde a década de quarenta do século XX, o centro de Laguna não sofreu grande alterações na sua estrutura. No entanto, em meados da década de 70, com a popularização do turismo de veraneio, o comércio retoma o seu crescimento e novas construções são erguidas. Nessa perspectiva de modernidade, muitas casas coloniais foram destruídas. O fato impulsionou um movimento a favor do tombamento, que anos depois se mostraria fundamental para a sobrevivência de outro nicho do turismo, como o cultural. "Eu e Jairo, meu esposo, fomos pessoas engajadas para que o centro de Laguna fosse tombado, fato que nos causou contragimentos devido a rejeição de moradores que não queriam o tombamento", destaca Amélia Baião, professora aposentada.

Voltada para a Lagoa Santo Antonio, o espaço tombado forma um anfiteatro natural, composto pelo alinhamento das ruas, prédios e aspectos geográfico. "A área de tombamento compreende ao conjuntos de casa e prédios públicos, incluindo o espaço geográfico correspondente ao centro histórico, formando um polígono que concentra sua estrutura no cume dos morros", diz Rafael Pires, arquiteto responsável pela unidade do IPHAN em Laguna.

Como argumentos para a aprovação do tombamento, alegou-se a importância do conjunto arquitetônico, com característica exclusivas no Brasil, além da importância histórica de Laguna, que foi palco da Revolução Farroupilha, cidade natal da heroína Anita Garibaldi e marco do Tratado de Tordesilhas ao Sul.

Vista da região tomabada.

Redesenhando o passado


Para que o Brasil mantivesse em seu território a parcela definida a Portugal pelo Tratado de Tordesilhas, em 1494, foi necessária a colonização das terras que hoje são Santa Catarina. Em 1676, chega o primeiro núcleo de colonizadores, junto com Domingos de Brito Peixoto, bandeirante vicentista, responsável pela fundação da vila que viria a ser a mais importante do Estado.

Com a vinda de habitantes, constituem-se as primeiras caracterísiticas culturais, preservadas ainda hoje, sobretudo, na arquitetura. Esse conjunto de prédios, classificados por sua genialidade artística, com peculiaridades nas plantas e nos detalhes, fazem parte de um cenário vivo, onde fatos da história nacional e a vida privada dos moradores se misturam.


Do Luso ao Decò: as fachadas que imortalizam a história


Mais que manifestação artística e cultural, a arquitetura de Laguna reflete ciclos políticos e econômicos pelos quais o município passou. Neste espaço é possível identificar três estilos arquitetônicos que resistiram ao tempo, representantes de períodos com características socioeconômicas diversificadas. Segundo o arquiteto Dagoberto Martins, outros estilos apareceram durante a história da cidade, mas apenas três resisitiram como referências materiais representativas. "Esses estilos, que caracterizam o Centro Histórico lagunense são o Luso-Brasileiro, o Eclético e o Art Decò", elenca Martins.

Com a chegada do primeiro núcleo de imigrantes portugueses, introduz-se em Laguna o traçado da arquitetura lusitana, com características medievais, onde as casas ficam alinhadas, em fita, remetendo àquelas construídas nas encostas dos morros. Essa forma de construir subistiu por motivos funcionais. As casas geminadas serviam como fortes, uma proteção mútua entre moradores, contra possíveis invasões. Esse estilo ganha o nome de luso-brasileiro, por ser característico da arquitetura portuguesa, embora construído com materiais brasileiros. Representa um momento histórico onde a construção da vila era prioridade, dispondo de poucos recursos financeiros e um pequeno desenvolvimento econômico, distinguido pela pesca artesanal, agricultura de subsitência e um fraco comércio.

A ascensão ecônomica da cidade, sobretudo, pela atividade portuária, eleva Laguna a condição de cidade berço da cultura catarinense. As atividades comerciais, com ênfase na exportação e representação, viabilizam uma vida social mais requintada, o que se reflete diretamente na forma de construir. Nesse momento aparece os primeiros prédios em estilo Eclético, misturando diversas tendências importadas da Europa, período este relativo as últimas décadas do século XIX e início do século XX.

Como última referência material, o estilo Art Decò, com fachadas retas identificadas por seu formato em série, revela identidade moderna das fábricas e pólos industriais. Remonta um período ainda de grande efeverscência, no entanto, a partir daí inicia o período de decadência da cidade, com o enfraquecimento do porto, a abertura das rodovias e a descentralização das atividades de exportação. Em meados da década de 40 do século XX inicia-se um período de estagnação na cidade, refletido no modo de construir.