O tempo e o espaço de Therese - a trama - são motivados pela propriedade e pela família, constituída sob a violência tácita, embora sobreviva nisso um sopro de amor, de candura. O afeto sobrevive ao embrutecimento. No olhar para a propriedade da terra, Therese - a mulher - entrega, indiferente, o corpo e a ideia. E não questiona, por princípio e em princípio. No entanto, a mulher que tem uma crença racional no comum e no secular é a mesma que oscila àquilo que desconhece e a inquieta. E quando rompe, o faz de forma irreversível.
Therese traz consigo a disputa entre tradição e rompimento. Absolutamente dona de si, atira-se à instituição matrimonial, milenar e patriarcal. Vê, senão, a ordem das coisas como elas são, esperando que isso lhe traga algo de novo. Cumpre os ritos: cópula, procriação, conduta. Embora não veja razão nesse seu papel social. É quando olha para a paixão, que necessariamente não está encarnada em estereótipos com os quais nos acostumamos, e desperta para sensações profundas, para coisas que não se nominam. Esvai-se.
A tarde clara, à beira da água, elucida. Da menina à moça altiva. Da mulher indiferente à histérica incompreendida. Demove-se da letargia moral, essa que à luz da história é sedimentada, mas que é causa de soluços inaudíveis de tantas de nós, espalhadas por aí. Therese não se preocupa em compreender, segue o desejo, defende-o de si mesma e dos outros.
Lança-se a histeria, que bem caracteriza a última alternativa que dispõe um corpo que sente não encaixar-se no espaço. Therese não é filósofa ou poeta. É uma mulher comum, o bastante para transgredir. Uma mulher que ignora a culpa e que abre mão da imagem social, rompendo com um mundo estabelecido entre as dualidades, entre pares e entre comportamentos impostos culturalmente à natureza feminina. Vai às raias do linchamento moral, dos preceitos da lei e ao leito da morte para encontrar-se com algo que vibra, com a inquietude no olhar do outro.
Lança-se a histeria, que bem caracteriza a última alternativa que dispõe um corpo que sente não encaixar-se no espaço. Therese não é filósofa ou poeta. É uma mulher comum, o bastante para transgredir. Uma mulher que ignora a culpa e que abre mão da imagem social, rompendo com um mundo estabelecido entre as dualidades, entre pares e entre comportamentos impostos culturalmente à natureza feminina. Vai às raias do linchamento moral, dos preceitos da lei e ao leito da morte para encontrar-se com algo que vibra, com a inquietude no olhar do outro.
Exilada e imersa na loucura, persistindo sem muitos porquês, encontra o fio da própria história. Sem muita clareza, sem muita consciência, mas com uma certa ciência que algo acontecerá e ela irá tateá-lo, experimentá-lo. Therese é aquela moça que caminha na rua, que toma o ônibus, que sai para trabalhar. Therese é a coragem a frente de seu tempo, sem comprometimento com as escrituras e com os legados ao tempo que há de vir. Therese é aquela louca desconhecida, que não fica gravada na memória coletiva, nos livros e alfarrábios, mas, embora não saiba, nos leva para além.
Imagem: Overtube
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