5 de agosto de 2015

As palavras estão calvas, descabeladas com o tempo que passa, com o vento lá fora. Desgastadas com o uso, desbotadas pelo tempo da atmosfera; sol a pino. Todas elas, incrustadas nos bilhetes e nos diários, no microcomputador enferrujado. As palavras tomaram banho de mar e se sentem revigoradas; chupam cana na beira da praia e comem milho-verde transgênico. Em pedaços, colam-se nas paredes dos costões como os mariscos; colam-se nas paredes do quarto, como o mofo. As palavras sobrevivem à hecatombe e à chuva fina; sem mandachuvas, sem guarda-chuvas. Compõem a serenata na casa ao lado e o silêncio da eterna madrugada que há em mim. As palavras rejuvenescem nas linhas que tumultuam a minha pálpebra, misturam-se ao soro da minha íris; fazem-me companhia.