8 de fevereiro de 2010

Carnaval

Gostava muito de carnaval. Ainda gosto um pouco, mas não como antes. Ao mesmo tempo que o gosto se refina ele também envelhece. Muda de cor, de sonoridade. Carnaval sempre teve cara de Rei Momo, de rei bobo. De rainha bonita, rainha de purpurina. Ele sempre pareceu feliz, ele sempre pareceu-me consciente.

Hoje em dia tenho olhado mais para a face triste do carnaval. Talvez porque tenha refinado o gosto, talvez porque esteja mais chata que eu deveria. Mas, vejo na fantasia um disfarçar solitário, uma angústia de não se ser. Breve e tosco.

Certamente ingenuidade não é algo que se vê no carnaval. Mas ele o é. Ingênuo na desfaçatez. Não por ignorância, mas por ignorar-se. É belo como coisas efêmeras e, também robusto, como coisas profundas. De longe é futil, é simplista, é de carne e osso. De perto é ingenuo, manso, trazendo em si todas as lamúrias, os fetiches e as ambiguidades do indivíduo.

Por isso eu gosto do carnaval. Mas hoje nem tanto, porque não consigo, por tras da máscara, esconder a mim e aquilo que o próprio carnaval me traz de lembranças. Por isso que gosto tanto de carnaval. Mas, hoje, nem tanto.