25 de fevereiro de 2010

Big Brother

Confesso. Minha diversão diária tem sido Big Brother Brasil 10. Faz muitos dias que queria dizer isso aqui, mas fiquei na dúvida. Porque revelar hábitos é revelar estilo, é desvelar o bom ou o mau gosto. Algumas manias podem trazer à tona transtornos, outras, a (in)capacidade mental. Neste caso, pode ser uma confissão de "falta do que fazer", mas digo aos desavisados que, mãe nenhuma, com uma criança de 11 meses em casa, é desocupada. O que interessa é que despi-me do auto-preconceito, e sim, confesso, assisto ao BBB 10.

Poderia eu, refletir sobre a televisão, o entretenimento, a Sociedade do Espetáculo, a Escola de Frankfurt e os nossos mais leais intelectuais da Comunicação Social, mas não tenho esta pretensão nem mesmo este estímulo. Nem falar sobre a sociedade do consumo, a indústria cultural, a psicologia de massas, etc, etc, etc. Quero falar do espírito catártico do BBB. Digo isso porque me pego emitindo opiniões vorazes sobre os participantes, o dia-a-dia do jogo. Vocifero, julgo, esbravejo, aponto, rotulo. É tem o programa este espírito de gozo, de desabafo, seja de dentro para fora ou de fora para dentro.

Quando digo de dentro para fora, é preciso entender que cada jogador é uma pessoa, cada pessoa é um personagem e cada personagem é um jogador, nada nesta ordem, nada determinante. Dizia uma amiga minha, que - não sei se parafraseava alguém - para mentir é preciso boa memória. Pois bem, não há boa memória que resitas as janelas instantâneas da fibra ótica, do "cine-olho-vertovniano-contemporâneo". Nem mesmo o esforço da edição, nem as artimanhas de qualquer tipo de recorte audiovisual podem burlar, em sua totalidade, o que ocorre lá dentro.

E tendo em vista a natureza do homem e também a do programa, é passível determinar bons e ruins? Imagine-se, desavisado leitor. Penses tu, reles mortal, dentro de um programa, onde nada seu é indecifrável, rodeado de marcas, imagens, pré-conceitos, pré-triagem, pré-sorteios. Saindo do anônimo ao polêmico, do ridículo ao gênial, em semanas. Explodem corações que beiravam a morte, vibram velhos de alma, sussuram aquelas pessoas - que como eu, se sentem donos da "inexorável consciência crítica", inabalável pela cultura de massas!!!!!!!!!! É inevitável a catarse.

No entato, me levo a refeltir sobre o segundo elemento, o "de fora para dentro". Despudorado, o público do BBB quer ver o assassinato em praça pública, quer ver a imundície humana, quer ter o direito de versar sobre a vida, as idéias e os limites do jogador-pessoa-personagem. Ele, em súbita cartase - e é por isso que o programa dura pouco tempo - crucifica os ingênuos, idolatra os inteligentes. Porque num reality show como esse, os ingênuos são os que confabulam abertamente, sem sutiliza, sem requinte e sem querê-lo. Inteligentes, hábeis e dignos de nossos "aves"são aqueles, que conscientes ou não, não fazem em aberto seus conchavos. E neste aspecto, concordo com a maioria dos telespectadores. Porque o brother há de ser bom jogador, bom personagem e boa pessoa. Bom jogador para arquitetar formas de sobreviver até o fim. Bom personagem, para que seja capaz de entreter o público que, nesta relação, como todas as outras no mundo, requer a troca. E boa pessoa, porque o brasileiro quer premiar aquele merecedor de se dizer, como ele, brasileiro, lutador, sofredor, batalhador, digno.

Nós e todos os 17 BBB`s somos falíveis, conflitantes, às vezes sagazes, às vezes ignorantes. Ignorantes justamente por não termos, em determinados momentos, - sobretudo neste tipo de confinamento - a dimensão do que está colocado num universo de elementos que se misturam no nosso cotidiano, ou na elaboração de um programa desta natureza. E é catarse pura. Com método, com raciocínio, com instinto de sobrevivência, mas com um germe da natureza humana, que precede o nosso próprio consciente.

Portanto, há de se pensar em algumas coisas. Primeiro no espírito de competidor, de atleta, com serenidade, temperança, abnegação e treino. Há de se ser também natural, mas com sutiliza e elegância, com cuidado para não demonstrar sentimentos pífios. Há de se ser honesto, de se ter opinião, quando se deve, quando se precisa. E há de ser humilde. Talvez o sejam, mas para alguns faltou a capacidade de ter humildade para se perguntar se "agir com seu coração", não pode ser uma desculpa para justificar sua incapacidade de leitura perante o jogo-programa-realidade que é o Big Brother Brasil.

Penso que o BBB 10 tem sido, ao menos para mim, um grande estudo de caso sobre o perfil cultural do povo brasileiro, sobre que tipo de comportamento é passivel de manipular a massa. Que nós, brasileiros, somos conservadores, machistas, justiceiros, um pouco de José de Anchieta, um pouco de Lampião. Traz, como marca latente, a vulnerabilidade das pessoas que estão lá e seus pequenos sonhos, em detrimento de um programa que gera milhões com nosso consentimento diário. Penso que são pessoas, jogando, vivendo e produzindo riqueza que não podem mensurar. O BBB demonstra que não são de elementos maniqueístas que a vida é feita, que não são de mocinhos ou bandidos que o enredo da realidade é constituído, mas de resquícios da história, dos hábitos e do imaginário de nosso povo. Seja de dentro para fora, seja de fora para dentro. E por isso a nossa necessidade de estravazar sentimentos, em explosões catárticas que, às vezes, nem percebemos que temos a frente da TV, numa noite de paredão.