5 de dezembro de 2010

Salutar

O senso comum é arma poderosa. Pode ameaçar, pode amedrontar. Ele se constitui, basicamente, do argumento mais fácil, que na maioria da vezes tem os elementos mais difíceis de serem desmistificados. Logo, o senso comum é superfície, mas é a sacada genial que obriga a se pensar menos e se ganhar tempo.

Na política, ambiente com espaço para o pensamento elaborado é onde se vê muito de senso comum. Mas, não raro é necessário elaborar. Eu acredito sempre que elaborar, argumentar o mais difícil, com a linguagem clara e honesta (porque "rebuscar" é tentar ludibriar) é o caminho dos que não se obrigam ao óbvio (que nem sempre o é).

Vejamos um caso. Eleger Tiririca. Superficialmente é óbvia a argumentação de que um semianalfabeto, "palhaço"e ridículo desmoraliza o espaço privilegiado da representação - neste caso, o Congresso Nacional. Afinal, alguém sem instrução não tem condições de elaborar leis que ampliem direitos, que superem desigualdades e por aí vai, visto que esse seria o objetivo do parlamento.

No entanto, pergunto-me: porque alguém oriundo do povo não teria essa capacidade? Questões técnicas são parte do trabalho das assessorias. O que tem que ter um parlamentar não é conhecimento de uma língua estrangeira, ou de um clássico da filosofia antiga, mas a capacidade de enxergar as necessidades do povo. Sem ser purista. Sem ser corrupto. Porque a política não é ingênua, mas pode ser feita de forma honesta, seguindo preceitos.

O que quero dizer é que existe mais coisas por trás desse discurso que desqualifica o analfabeto (ou semi). E que desqualifica o pobre, que depois desqualifica o negro, e mais um pouco as mulheres, até chegarmos ao cerne da questão: uma concepção eu diria "nazista", repleta de preconceitos. Pergunto-me: Se o óbvio não é sempre óbvio e se o senso comum utiliza de fáceis argumentos, não há algo estranho nessas defesas óbvias amparadas em (pré)conceitos?

Mas, aí refaço a crítica, que serve para tudo. Que server para matizes ideológicos mil. Que serve para o cotidiano. Que serve para a educação dos filhos. O senso comum, o descompromisso com a seriedade da palavra, a mediocridade no convencimento, sempre resultam na vitória pela força, não pela capacidade da disputa de idéias.

Por isso, é tão importante qualificar, elevar a discussão. Seja no grêmio estundatil, seja na atuação parlamentar, seja na universidade ou em casa. O pensamento crítico se eleva, quando na prática levamos para todos os espaço um prato de coragem para ouvir, e muita capacidade para elaborar. Sempre é mais salutar. Para a vida em grupo, para a vida em sociedade, para a democracia.