Este artigo foi originalmente publicado Portal de Notícias Vermelho. Ao republicá-lo aqui, não resisti e fiz alterações (mas o conteúdo permanece).
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http://www.vermelho.org.br/sc/noticia.php?id_noticia=12780&id_secao=116
Refletir sobre o papel da cultura no desenvolvimento social é premissa mínima se quisermos reagir enquanto membros construtores de uma sociedade esclarecida e justa. Passa pelo reconhecimento da identidade e da diversidade humana a construção do homem conscientizado, ciente do papel que exerce em seu meio. A partir da valorização da produção cotidiana se dá a elevação da autoestima, da cidadania e do respeito à pluralidade, transformando os seres em agentes participativos dentro dos processos humanos em busca do progresso.
Santa Catarina destaca-se nacionalmente como um Estado conservador. Essa afirmativa pode ser constatada pelo grande número de governos municipais ideologicamente identificados com uma política ultrapassada, pelo conceito de moral atrasado, impresso nas relações e os resquício de repressão, xenofobia e racismo, presentes no discurso da sociedade. Na minha opinião, fruto também de um grave problema: o povo catarinense não tem conhecimento sobre si. De um ponto de vista político, o problema acentua-se quando percebemos a falta de estratégias públicas para área da cultura. Fator que alija o desenvolvimento teórico e diminui o senso crítico da população.
Talvez seja essa a tática, mantenedora de um status-quo, reafirmado na ausência de um projeto amplo no campo da cultura. Os movimentos artístico-culturais são ferramentas para estabelecer um novo olhar sobre a sociedade, ampliar a atividade intelectual e diluir elementos retrógrados presentes no pensamento/discurso da população. Esse salto social em SC pode se dar (e deve se dar) a partir do momento em que entendermos nossa história, nossa formação etnológica e a cultura popular produzida por homens e mulheres que formam um mosaico cultural, advindo de todos os continentes.
A diversidade propõe uma Santa Catarina com caras e sotaques de diversos eixos: ibéricos, mouros, negros e índios contrastam com um "pseudodiagnóstico" que determina como característica catarinense uma fisionomia européia, no meridiano de um país tropical. Erro. Precisamos despertar para a idéia do múltiplo, do diverso e, sobretudo do novo, que aparece com o passar dos anos, das adaptações da cultura e da formação de um arquétipo chamado homem catarinense, característico em si e brasileiro por essência.
Neste pequeno espaço territorial, um lugar de ampla miscigenação. O processo colonizador no Estado se dá por diversas vertentes, desde a povoação litorânea por portugueses vicentistas que abrem os caminhos ao Sul do Brasil, açorianos que desembarcam para garantir povoamento das terras em disputa com a Espanha, negros vindos da África para servir de mão de obra escrava ou mesmo os imigrantes italianos e alemães, fugidos da miséria instaurada na Europa do século XIX. Libaneses e poloneses. Uma colônia de japoneses no interior de Santa Catarina. Destaque fundamental para os indígenas (donos dessas terras) das tribos Xokleng, Kaingang e da grande família Tupi, sambaquieiros, que deixaram como legado os vestígios intactos da sua história, nos Sambaquis mais expressivos do território brasileiro.
Mãos tecendo uma colcha de retalhos, onde cada microrregião se transforma num espaço novo de descobertas. Norte, Sul, Planalto, Vale, Oeste, banhados pelo mar, pelas águas doces das lagoas e dos rios, o homem em luta com o moderno e o arcaico. Se parecia difícil perceber tanta diversidade, impossível agora o leitor não esbarrar na gama de costumes e tradições, no lirismo e na poesia, tipicamente catarinenses, caracterizados por aquilo que o Brasil tem de melhor: a heterogeneidade humana.
Afastado pela pouca relevância política no cenário nacional, Santa Catarina é, por assim dizer, filha do verde e do amarelo, repleta da miscigenação, belezas naturais e composta por um povo acolhedor, típico da realidade brasileira. Nas artes, na produção cotidiana, no passado de lutas, na construção política baseada
historicamente na manutenção da unidade do país, com uma cultura popular repleta de lendas, de "causos", de personagens e de peculiaridades linguísticas, por que não vermos este pequeno Estado como um espaço inspiração, pluralidade, atividade intelectual? É preciso enxergar o limiar de uma nova concepção de valores, onde se abandona de vez por todas o conservadorismo e o marasmo. É no negro quilombola guerreiro, na criatividade açoriana, na espiritualidade indígena e no lirismo ítalo-brasileiro que unificamos um só espírito e jeito de ser Barriga Verde, que não é vulto do passado, mas presença contínua no caminhar da história.
Nos falta, certamente, mais acertos no que diz respeito à política de desenvolvimento da cultura, com projetos incentivadores para as artes e para a cultura, de forma a democratizar o espaço de quem produz e o acesso de quem consome. Dar ao povo oportunidades de aproximar-se das artes é propiciar acesso ao esclarecimento. É fundamental a criação de museus da cultura popular, o incentivo a pesquisas antropológicas, realizadas nas mais diversas comunidades, a fim de resgatar as atividades não só amparadas no tradicionalismo estático, mas, no intuito de elevar a alma do povo, onde ele se reconheça e possa desenvolver a crítica sobre si e sobre o meio.
Santa Catarina é, sem dúvida, um lugar de grande riqueza, com inúmeros agentes que pensam a cultura sob o aspecto da democratização, com uma história importante para a construção desse país, de peculiaridade cultural e étnica, essenciais para a consolidação da idéia de identidade, tão importante para a soberania de um povo.