25 de fevereiro de 2013

O que eles viram em Argo?

Longe de enveredar por explicações complexas, Argo é, dessa margem do rio em que baseio minhas suposições, um filme que produz sensações de rompimento com a forma de contar histórias tradicionais do cinema hollywoodiano. É, pois, dessa perspectiva que me atrevo a dizer algumas palavras sobre a sua premiação como melhor filme em 2013.

Argo é marcado por constituir sua narrativa a partir do verossímil. Sobretudo na primeira parte do filme, em que enredo e personagens articulam-se dentro de uma perspectiva passível de reconhecer-se como real, semeando ilusões através do discurso, baseado em elementos que vão da autocrítica ao medo da execução sumária.

"Em princípio, parece colocar em xeque o mito do herói americano. Seis diplomatas, despidos do heroísmo tradicional, reconhecem o medo como parte do processo de luta pela sobrevivência. Fogem da sede da sua embaixada, que ora está tomada pelos manifestantes que derrubaram o poder político instaurado com apoio americano". (O que assisti em Argo)

Na mesma linha, apresenta um protagonista manso e discreto. Tem-se a impressão que estamos defrontando, novamente, o mito mais emblemático hollywoodiano: o herói de guerra, que agora nos surge com nova roupagem e mais próximo de nós que perecemos às fraquezas humanas. Medo e anonimato humanizam a cena e codificam ainda mais a mensagem, que mesmo o observador mais atento absorve como verdade.

O filme propõe-se ao relato da história e, como tal, lega à posteridade a versão dos vencedores. As críticas à trajetória política internacional americana e a desconstrução do herói, agora anônimo, douram a pílula para, no segundo momento do filme, nos impingir - como sempre - a mesma mensagem de ocidente civilizado x oriente brutalizado.

Talvez os critérios para a escolha de Argo como melhor filme tenham a ver, puramente, com os elementos da linguagem cinematográfica. Mas, não acredito. Como ferramenta ideológica, Argo apura a produção de sentidos sobre o isso e o aquilo, aprofunda-se na verossimilhança e na humanização dos heróis de guerra, e suplanta caricaturas ao implantar outros elementos na luta pelo convencimento. Busca o politicamente correto, mas salvaguardando o status quo. Argo amansa e interfere no padrão de construção do estereótipo, de forma a aprimorar as facetas de um dos pilares da indústria cultural: construir discursos e reproduzir ideias - as que lhes interessam.

Fonte: Mega filme