20 de setembro de 2013

Novas identidades da família brasileira

Ao longo das últimas décadas, mudanças sociais e culturais influenciaram decisivamente a compreensão sobre o conceito de “família”. Se em nosso imaginário ainda sobrevive o estereótipo da família constituída por pai, mãe e filhos consanguíneos, a realidade nos mostra que as coisas se transformaram com grande rapidez. O reflexo disso é a incapacidade do Estado e suas leis vigentes de conseguir “ordenar” a vida privada. Nesse cenário, o avanço social se impõe à ordem estabelecida e a ideia de família vai tomando contornos plurais, rompendo com amarras ligadas ao sangue e ao sobrenome.

São cada vez mais comuns casas nucleadas por mulheres. Daniela Milidiu, jornalista, experimentou essa forma de organização familiar, quando aos 31 anos engravidou da Heloiza. “O pai dela não queria compromisso. Aí, cada um seguiu seu caminho. A Heloiza nasceu e foi registrada apenas com meu sobrenome. Um pouco antes de completar dois anos, o pai biológico a conheceu e quis assumir, no papel, a paternidade. Durante cinco anos, fomos apenas nós duas”, ressalta.


Daniela e Heloiza: são cada vez mais comuns as famílias comandadas por mulheres

Daniela não é uma exceção à regra. Cresce em todo o Brasil o número de famílias com mulheres responsáveis integralmente pela vida familiar. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 15% dos lares brasileiros tem essa configuração, reflexo também da independência financeira e cultural da mulher.

Felipe Centeno vive com Daniela desde 2002. Em seu primeiro casamento, que durou oito anos, não teve filhos. Felipe compõe um quadro ascendente no Brasil. Somente em 2010, 3,1% dos casamentos foram desfeitos.

Nessa segunda união, que já dura dez anos, Felipe ‘adotou’ Heloiza Fonseca, filha de Daniela. “Sempre tivemos uma boa relação. Ela me aceitou como um pai e eu – guardando o respeito que tenho pelo pai biológico dela – também me sinto pai. A convivência diária, a educação e a saúde da Heloiza são responsabilidades minhas e da Dani”, conta Felipe que, além de padrasto, é também professor de História da Heloiza.

Felipe e Heloiza: amor de pai e filha para além dos laços de sangue

E na família o que vale mesmo é a afetividade e o respeito às regras estabelecidas, em diálogo, no seu interior. “Posso contar sempre com ele. Quando eu tinha sete anos a gente saía na rua e ele sempre dizia: dá a mãozinha para não se perder. Temos isso até hoje. Sei que posso contar com ele em todos os momentos e que se eu ‘cair’ ele estará lá para me segurar”, relata Heloiza. Há cinco anos, Daniela teve um câncer, Heloiza encontrou em Felipe a certeza de que estaria protegida se o pior acontecesse. A intensa relação familiar proporcionou um ambiente estável para a total recuperação de Daniela.

Heloiza, hoje com 15 anos, mesmo não convivendo muito com o pai, tem uma excelente relação com a família paterna. No último verão, um de seus irmãos, de 16 anos, veio passar as férias na casa da família Milidiu Centeno Fonseca. “Minha relação com meus irmãos – que também foram criados mais pela mãe deles – é bem legal. Minha mãe deu muita força para isso acontecer. Tenho saudades mesmo convivendo pouco com eles”, diz Heloiza.

Mas, a convivência familiar ainda está muito relacionada às condições econômicas. Embora uma nova identidade da família brasileira se configure, assentada na afetividade, de acordo com o IBGE, a possibilidade de se encontrar domicílios com famílias conviventes – aquelas compostas por duas ou mais famílias nucleares, parentes ou não-parentes, que podem conviver em domicílios diferentes – é maior na região Nordeste que na região Sudeste. Enquanto os estados do Nordeste somam 5,5% dos casos, no Sudeste são 3,2%. Ainda segundo o Instituto, “tal chance pode ser explicada pelos níveis baixos de rendimento das famílias nordestinas, exigindo estratégias de sobrevivência diferenciadas em relação às famílias das regiões Sudeste e Sul”.

A família clássica já deixou de ser uma realidade no Brasil. De acordo com dados do IBGE, 50,1% dos lares não se encaixam no estereótipo tradicional de ‘casal heterossexual com filhos’. Além da realidade concreta de diversas famílias brasileiras, fatores como o ativismo ligado à emancipação das mulheres e aos direitos humanos têm auxiliado as mudanças culturais. Cresce o número de lares com duas mães ou dois pais e casais que trazem para uma nova organização familiar os filhos de seus outros relacionamentos, criando novas identidades familiares e derrubando pré-conceitos sobre a tradição em torno do sobrenome, da consanguinidade e da parentalidade. É importante compreender que há uma infinidade de combinações possíveis que podem caracterizar a vida em família e não deve haver regra social que as enrijeça. Aos poucos, embora ainda não estruturalmente, a vida em sociedade vai rompendo com paradigmas constituídos por uma cultura patriarcal que, historicamente, oprimiu as mulheres e todas as manifestações que fugissem da relação do conceito de família com o de propriedade.

Publicada originalmente em Revista Previsão n.4