21 de setembro de 2013

Não fosse

Se soubesse dedilhar acordes, pincelar ideias em tons de verões, sincronizar o passo no chão macio. Se pudesse, só por um dia, mimetizar a vida em linhas, formas, dós e rés. Se fosse útil e belo escrever...

Se não fosse só essa coisa sufocante, que sobrepõe a ideia e, eu diria, o pensamento todo. Sem métrica, sem rima, e sem mesmo a profundidade de um verso livre modernista.

Ah, se não fosse esse clamor atenuante da falta de motivos. Se eu bem tivesse apenas um motivo para representar. Se não fosse só essa vontade, esconderia essa mediocridade, essa incapacidade que não passa do primeiro verso, sem tom, sem cor, sem marcação e sem aplauso.

Se não fosse essa voz silenciosa que pede a mim o que nem mesmo posso dar. Se não fosse a vontade de chorar. Ah, se não fosse a vontade de gargalhar louca e copiosamente que embalou toda a madrugada. Se não fosse o sonho, o asco e essa gota de arrependimento.

Se não fosse isso, poderia ser aquilo. Poderia ser o nada, poderia ser além. Ou nem poderia. Daqui não passa. Eu prometo.