Cavalo sem cabeça diz a lenda: é padre apóstata, Franklin Cascaes
Quando eu penso em bruxas, me vem à ideia as histórias fantásticas que vó Honorata contava-me no sofá da casa de trás, depois do almoço.
Daquelas bruxas da Passagem da Barra, que chupavam os pés dos recém-nascidos e faziam tranças nos rabos dos cavalos.
Até que um dia, elas todas se materializaram, nas cenas da série gravada lá nessas mesmas terras, dando corpo, feição e verossimilhança àquelas bruxas que viviam em minha imaginação.
A mim, gravou-se na carne e no imaginário que, dentro de cada uma daquelas mulheres que vi passar pelas beiradas da lagoa, vive uma bruxa. Vive cá, também, uma dessas figuras enfaceiradas, de risada alta e cabelos esvoaçados.
Essas mulheres que vivem à beira d'água, dando vida as próprias ideias, tecendo resistências e preparando, em seus tachos e caldeirões velhos, poções que lhes trazem à tona. Elas mesmas, são aquelas que amedrontam o incrédulo e desafiam o dominante.
Dessas bruxas de contos fantásticos da infância trago comigo o aroma do pasto orvalhado, a coloração do entardecer que entremeia o azul do céu com o alaranjado e o lilás. Deram-nos o gosto pelas ervas, pela alquimia e pela liberdade, mesmo que, naquele tempo, restrita ao pedaço do dia iluminado pela lua.
