6 de novembro de 2013

A mulher da cara rubra

Desavisadamente corria sob as rajadas de vento sopradas do sul. No corpo, a maciez tecida pela mão trêmula e a rudeza das marcas do sol, do frio e da própria sina.

Enquanto corria para o vento, escorria sobre a face lágrimas saudosas de uma tarde de primavera que nunca viu passar. Batiam forte em suas pernas os quase invisíveis grãos brancos de areia que, com o vento, formam lençóis de poeira dolorida.

Buscava naquele começo de noite um alívio para o desalento. E corria, tendo como companhia, à esquerda, o mar agitado e, à direita, o caminho de volta para casa.

Não pensou na vida. Desejou apenas sentir, profundamente e sem intervalos, o gosto da histeria que tomou conta das ideias e das articulações do corpo. Dobravam-se os joelhos com maior velocidade em medida que perdia o fio da meada da própria história.

Correu até ficar bem cansada. Anoiteceu. Pegou a estrada que a levou de volta para a casa. Lá, pode perceber que o vento, os lençóis de areia que a surraram tenazmente e a maresia que lhe ensebara a pele deram-lhe a paz necessária para encontrar-se com aquela que nunca deixara de ser.