O menino da cara verde quer voar. E traz consigo todos os sentidos próprios e todas as conotações. Salta pelas cercas, refletindo na face o verde endouralhado da relva que se espalha até o horizonte. Ele quer amar e desejar. Quer carregar consigo o mundo.
Quando olha o verde do prado verde pensa naquele futuro que, imediatamente, quer se transformar. Nem tão materialista, mesmo que se espace entre esse e aquele raciocínio sobre os elementos concretos. Mas, lá dentro, ele quer mesmo é a vidência. Quer saber por antecipação.
É quando a cabeça voa. Longe. Posta-o diante do que ele crê que vai ser, onde ele crê que estará. Ele é todo o depois, sugado pelo que há de vir. Sorri para si, tem fé. Não duvida que o menino verde que é, será este homem maduro que lhe surge diante das nuvens brancas em que tenta adivinhar a feição. Este homem pronto para cair do pé, que vê de relance, não é esse menino verde que se põe a sonhar.
O menino da cara verde paga para ver. Ainda não é homem, é só um menino. Desce da árvore, esforça-se, luta em batalhas reais e combates fantásticos. Aos poucos, as primeiras tomam-lhe mais tempo que os segundos. Ele segue o caminho sem saber que o homem que deseja ser pode não vir. Simplesmente porque o menino que é pode não levá-lo até lá. Não pegarão o mesmo caminho. O menino da cara verde se faz em medida que anda e, ao fim, nunca saberá com quem se encontrará.
Acende um fósforo, deita-se na rede e aguarda o sono para levá-lo até lá. Naquele tempo e lugar em que mora esse menino que quer ser homem e esse homem que quer ser menino.