Embora, na compreensão de quem escreve, uma prova não seja o procedimento mais adequado para o acesso ao ensino superior, é pertinente considerar que essas provas devem constituir-se a partir de critérios bem fundamentados, amplamente divulgados e cuidadosamente utilizados, seja na sua aplicação e/ou avaliação.
Talvez tenha sido dessa mesma perspectiva que a imprensa brasileira tenha partido para colocar em xeque o caráter do Enem e construir ideias sobre o uso da língua portuguesa. A justificativa pode ser a mesma, mas o objetivo seguiu outro caminho.
No texto de Mendes, há uma avaliação da cobertura midiática, em que o autor destaca a natureza distinta do vestibular e do Enem. Enquanto o primeiro preza a classificação, o segundo presume a avaliação do ensino médio cursado pelo candidato. Logo, com objetivos diferentes, a prova do Enem não prima pelo conteúdo e, menos ainda, pelos critérios de avaliação que estamos “acostumados” em vestibulares. Sob esse aspecto, o Enem alteraria a concepção que fundamenta a forma do ingresso nos cursos superiores públicos. A pergunta que fica é: o Enem se relaciona melhor com a realidade da educação básica brasileira do que as provas de vestibular? Dados da matéria do Portal Terra apresentam que as universidades públicas vêm aderindo ao Enem como forma exclusiva de ingressos nos cursos superiores. Surge outra dúvida: quem perderá com a extinção do vestibular?
Mendes menciona ainda que a imprensa generaliza um procedimento e dá para ele a dimensão de todo. Nessa mesma compreensão, Possenti destaca que as redações que continham “brincadeiras” perderam, pelos menos, metade da nota. Foram punidos, mas por que deveriam zerar se mantinham justeza nos demais critérios utilizados para avaliar tais redações?
Por fim, uma manifestação do Inep, em matéria publicada no Portal de Notícias Terra, que apresenta a meu ver, uma definição do processo integrado que deveria comportar a educação brasileira. “A tolerância deve-se à consideração, e isto é relevante do ponto de vista pedagógico, de ser o participante do Enem, por definição, um egresso do ensino médio, ainda em processo de letramento na transição para o nível superior”. Ou seja, o ingresso no ensino superior não é algo descolado dos anos vividos e “apreendidos” no ensino básico. A educação deve ser concebida enquanto processo contínuo e os critérios para o acesso devem prever a equidade, mediante aquilo que o próprio estado brasileiro oferece.