18 de janeiro de 2010

O Gato de uma vida

Era uma vez um Gato, ele cochichava, cochichava... Às vezes ele também conchavava, e conchavava. E assim passava seus dias, cochicha daqui, conchava dali. Achava-se esperto, o Gato.

Ganhou muitos partidários. Ameaçou pessoas, pois contra elas percebia que podia cochichar e conchavar. Encontrou neste ofício alguma riqueza e prestígio, pois, aos poucos, tornara-se uma grande referência entre cochichos e conchavos.

Construiu um império. Ministrava cursos de "como cochichar em braile". Fazia "workshop" por todo o mundo, ensinando estratégias para um conchavo eficiente. Foi um exímio professor, administrador, teórico e prático das habilidades no reino da cochicharia. Desbravou o mundo dos negócios, dos "business plain". Agenciou grandes astros da música, assessorou políticos polêmicos, dormiu com as mais belas mulheres. Tudo embasado no conchavismo.

O conchavo e o cochicho se tornaram uma ciência. Ele era um "best seller", um "expert". Era um sucesso completo, pois o Gato nunca se interessou por agrados descomprometidos ou cafunés apaixonados. Também nunca gostou dos outros gatos da vizinhança. Sempre preferiu manter a distância.

Mas, um dia, o Gato quis fazer um brinde. Brindar sua vida. Ele quis gozar dos prazeres que o cochicho e o conchavo haviam lhe proporcinado. Sentia a velhice e a morte chegar. Pensou que tinha tido muito sucesso com conchavar e cochichar, no entanto, nada mais fez senão isso. Queria saber o gosto de outros verbos, só que o tempo passara, e se fazia inverno nos seus pelos, no seu gingado exausto.

Aí, percebeu o Gato, que era findo o tempo de pular pelos telhados do mundo. Não havia tempo para procurar outros horizontes para miar. Estava, enfim, preso a vida que escolheu. A vida de um cochichar solitário. Pensou: ainda me restam seis vidas. E num passo em falso, caiu no fosso entre uma cobertura e outra. Um fosse escuro, vazio. E a realidade se abriu, lhe mostrando que gatos, gatos não tem sete vidas.