23 de janeiro de 2010

A Ponte


Ponte é uma sugestiva figura de linguagem. Passei a madrugada a pensar sobre a vida. Dormi, sonhei, acordei e refleti sobre a ponte, a ponte da minha vida. Que é concreta, que é abstrata.

Na ponte concreta, encontrei dificuldade para atravessar. Sentia tonturas, chorava, tive pânico. Ela era um obstáculo presente, concreto, mas também abstrato.

Era concreto porque estava ali. Se tivesse que escrever sobre um fato que estivesse do outro lado, teria de superá-la, pedir auxílio, desbravá-la. Sentia uma impotência material, na pele. Se não houvessem condutores, guarda-vidas, anjos guardiões ou alguém interessado em se divertir com minha angústia, era impossível. Até hoje o é. Para seguir em frente, pedia as crianças do colégio, aos passantes, aos ciclistas. Concreta, longa, trêmula, velha.

Abstrata. Ela era a demonstração material de todos os meus medos, dos meus receios, dos meus segredos, das minhas ambiguidades. Como temer uma simples ponte se eu não temia o mundo? E lá estava ela, atentando para o que em mim era vulnerável. Quando via-me do "outro lado do rio", muitas vezes sentia medo, pois sabia que a viagem para buscar-me seria longa. Quando, para ilustrar impossibilidade de olhar pra mim mesma, pensava o quanto difícil era - e ainda é - atravessar minhas próprias pontes.

Durante todo tempo ela esteve ali, cheia de fantasmas, de histórias, de lacunas, de tábuas despregadas. Ponte de um leito verde, de raízes que revezam sua exitência entre a sua beleza externa e a imensidão de sua vida imersa. Rio da ponte pensil, de natureza diurna e das noites frias de luas, de gargalhadas e pesares. Ponte do rio da ilusão, que parecia submergir dele, como que em delírio, um mundo paralelo, do devaneio. Não o vi só, vi com olhos testemunhos, com testemunhas oculares.

A ponte, o rio. Tinham em si um pouco do amor, da felicidade, da ternura. Tinham em si sofrimento bobo. A ponte que levou de mim e de outros, mas que também foi a nós complacente. Um mistura de santidade, de ingenuidade, de singeleza e de solidão. Na sua imagem concreta e naquilo que tem ela de abstrato, repousa um pouco daquilo que só ela pode nos dar.