Fiz tantas amizades nessa vida. Pelos meios-fios à meia-noite. No carteado, nas manhãs claras e frias em que o corpo se põe a caminhar sozinho. Em garrafas, em tardes ensolaradas, em pontes, em cerrados, na grama, no boteco, na escola, na cátedra, na luta e em tudo que é mais ridículo. Em casas, apartamentos e barracas. E quando penso que a vida nem sempre foi amiga, lembro que, nessas horas, sempre apareciam duas ou três almas meio embriagadas que acompanhavam aquele espectro de gente que era eu, sem eira e sem beira. Na mesma intensidade que assumo meu desejo pelas pessoas que passam por mim, reconheço que querer estar comigo é difícil, é pesado e é nebuloso. Não respondo expectativas, mudo de ideia, saio de casa e não deixo bilhete. Mas trago na mochila, na cruz que carrego e na cabeça todas as coisas vividas, sem lembrar o que nos fez nos perdermos no tempo e no espaço. Ao fim e ao cabo, os laços não se desfazem por completo, pois tudo que vivemos continua aqui, num pedaço de carne, de pele e de osso. Eu sou tudo que tive um dia e tudo aquilo que ainda vou viver. São coisas que não se dissipam, não deixam de existir. Se transformam no que se é, no que se tem, no corpo e na ideia que esses anos, poucos ainda é verdade, trouxeram a mim e a ti. Só sei ser isso.