Ele disse a senhora que não irá viajar. Não fará a barba nem amarrará o cadarço do sapato velho. Nem mesmo se fosse novo. Foi o que lhe disse para calar-se a seguir, como o faz há meses, povoando de silêncio aquela sala em que só se ouvia o badalar do relógio encrustado pelo tempo na parede.
A tinta que cobria o cômodo era a mesma há 20 anos. Desistiu de ser. O tempo lhe tomou os fios castanhos. A desilusão tirou-lhe a cor das abotoaduras, dos ternos e até das camisas esportivas que usava em sábados ensolarados quando saía a pedalar pelas alamedas e curvas da beira rio. A dor tirou-lhe o rubor da pele marcada pelo sol que não mais via nascer. Deu-lhe tez pálida, ludibriada pelo desconforto suportável de quem nem mesmo lembra-se de acordar.
Não olhara mais o dia pelos fachos de luz que doura os verdes, os azuis e 'alaranja' os vermelhos. Partia triste nas tardes cinzentas de domingo, a coroar a vida de melancolia, esvaziando-se de si e de tudo que pudera lembrar-lhe a primavera. O verão? Não há mais nada nessa carne que relembre o sedutor e o flamejante senão o sangue que ainda lhe corre às veias.
Nem mesmo naquela tarde em que esbarrou com uma nuvem de abelhas. Nem grito, sussurro ou choro. Também não ri. Embriaga-se levemente para não sentir grandes aflições. Não vai viajar. E disse àquela senhora que lhe ajeita as almofadas no sofá e lhe põe a mesa do jantar. Não tem amigos. Dizem que os teve, nem mesmo ele lembra. A memória aos poucos se livra daquilo que não mais o corpo pratica. Perambula entre olhares, intercalados por pena e asco. Não viajará no natal e no ano novo. Já tomou-lhe o corpo, o mofo e o limo. Já é móvel, imobilizado pelas lembranças cada vez mais translúcidas de uma vida que não viu e que não teve, que deixou partir junto às perfeições que só existiam em um continente de ilusões. Preferiu o sonho à realidade e não conseguiu contê-los. Tampouco conteve-se. Ilhou-se. Criou raízes. Não frutificou. Apodreceu sem vida. Perdeu o trem. Não irá mais viajar.