16 de janeiro de 2014

A mulher da cara púrpura

Sentiu que podia chegar à beira do horizonte e colher estrelas. Foi. E não levou sapatos. Pés duros, coração mole. A mulher da cara púrpura nem pensa em se proteger do tempo e do espaço.  Nela, a vida inscreve todas as intempéries daqueles caminhos trilhados, dando-lhe as marcas que ainda hão de lhe orgulhar.

Em dias ensolarados, caminhou lentamente, sentindo o perfume dos girassóis, empilhando sensações e abraçando o mundo como se hoje tudo fosse acabar. Em noites de tempestade, corria na chuva, galopava na escuridão e, quando não mais tinha forças, contava com o vento, a empurrá-la, sem pensamento, sem tino, sem alma.

Ela sentia, na face e no tórax, que podia chegar ao horizonte e colher luzes que por lá já se apagaram. A mente fantástica nunca para de piscar. Acredita, desafia, promete, acaba com tudo. A mulher da cara púrpura, caminhou e correu. Viu nevar sob sua têmpora. Viu dourar o dia sob seu olhar. Se o tempo corroeu-lhe a maciez da pele? Ela nem viu o tempo passar.

De repente, saltou-lhe aos olhos os moinhos e seus trajetos. Esse caminho torto passa a lhe dizer mais do que o destino que buscou no início da jornada. E na prática repetida, a leitura de que o fluxo do trânsito e a resposta que se dá a ele, desnudam àquela mulher do semblante púrpuro que a olha no espelho.

A mulher da face púrpura agora é toda embriaguez. Corre para casa sem rumo, sem razão e sem querer. Essa mulher de cara roxa, de todos os tons e todos os sentidos, da cor das suas dores e dos seus amores, é o que ela pode ser.

Resistiu a verdade e postou-se frente a mais uma versão. E outra. E mais outra. Revisa-se, edita-se, não precisa redigir-se. As marcas que a mulher tem no corpo e tudo que tem dentro de si, incrivelmente, fazem dela toda vida e libertação.

A mulher da cara púrpura é ímpeto que resbala na consciência. Lamenta tão violentamente que quando cessa é como se fosse o fim de tarde azulado depois da tempestade, visitado pelas sete cores e pela bruma do novo tempo. Embora seja feita de dor e desventura singulares, a mulher da cara roxa é certezas e esperanças pluralizadas. É flexão e cedência. É feita de lágrimas e sorrisos, sofreguidão e resiliência, que se rasgam e se transformam nessa nova mulher de semblante roxo que acaba de chegar.

A mulher da cara púrpura é livre. E pode voar.