Contava com a sorte, mas não teve dia em que deixou de fazer o pedaço que lhe cabia. Como assim, cabia? Tem roupas que nem nos cabem mais! Caber parece paralisar a gente. Mas, caber também é se adaptar.
Sim, tinha sorte e ainda fazia a parte que lhe cabia. Todo mundo tem que fazer alguma coisa. Lavar, passar, contar histórias.
Sua predileção era pela sorte. Mas, nem sempre ela chegava brilhando, refletindo cor de ouro, anunciando a boa-nova daqueles que se darão bem na vida. E o que é se dar bem, senão sentir exaustivamente todas as sensações do mundo? Por certo, deve haver tantas formas de se dar bem. E elas devem ter a ver com plano e meta. Elas devem ter que se acertar com o inesperado.
Esperou por ela, tecendo o que lhe cabia. E de observar enquanto tecia, percebeu que o mundo se sacode porque tem gente a empurrar. E a sorte é uma resposta que vem torta, ameaçando o estável e ludibriando o que há por vir.
Por certo, no mundo, há esse fator surpresa, impremeditável e intolerante. Parado numa esquina qualquer, fumando um cigarro e rindo de canto. No mundo, há duas possibilidades: esforço e sorte. Nessa última, sorrateira, não dá pra confiar. Quando ela vem, toma a gente de assalto e faz a gente crer (pobre de nós!) que há alguma coisa de inexplicável e intangível.
O esforço e a sorte são medidas ajustáveis, que variam dependentes do ponto de partida que, por sua vez, não depende de ninguém, ou somente, de esforço e sorte.
Pois bem, ela partiu do zero. Ela é pura parte que lhe cabe nesse mundo de "meus deuses" sem cara e sem coração. Às vezes tem sorte, em todas as outras, é aquilo que sobrou da partida e da parte que lhe cabia nesse mundo.