O jornalista é um contador da história do seu tempo. Com essa tarefa, precisa lançar mão de um olhar criativo sobre a realidade, em mesma medida que deve atuar com responsabilidade diante da matéria-prima do seu trabalho: o fato. E se um fato pode ter muitas versões, cabe ao jornalista o exercício de observá-lo, estudar as condições que o precederam, checar as informações e compará-las, repensar seu ponto de partida para que o texto possa traduzir, numa narrativa do seu tempo, a versão que lhe pareça mais próxima da verdade.
Jorge Furtado em “O mercado de notícias”, documentário homônimo à peça inglesa do século XVII, de Ben Jonson, reúne ficção e realidade para trazer ao público uma reflexão fundamental para o exercício da democracia: a história da imprensa e seus imbrincados com o mundo capitalista e com o exercício do jornalismo. Um belíssimo filme que, ao discutir a natureza do jornalismo enquanto agente do contraditório na vida em sociedade, o faz em sua própria narrativa, ouvindo jornalistas brasileiros que se destacam na atualidade. Furtado faz um excelente trabalho de recuperação do que é jornalismo e de como vem sendo praticado no Brasil, apresentando ao telespectador diversos posicionamentos, permitindo que ele construa suas próprias conclusões.
O exercício criativo do bom jornalismo se traduz na capacidade desse agente em dialogar com a pluralidade de ideias, reuni-las com coerência e contextualmente, expondo de forma inteligível esse espectro de realidade que lhe concerne. Ao fim e ao cabo, jornalismo é conteúdo. É o exercício de tecer enredos justos e condizentes com o que se acredita, sem negar ao interlocutor as outras formas de ver o mundo.
Originalmente publicado em: Enredo - Conteúdo Criativo
Imagem: O mercado de notícias
