31 de janeiro de 2013

Dúvidas de uma não-trabalhadora que não lê

No entendimento empírico e amador dessa criatura que aqui escreve, a arte é a soma de concepção ideológica e concepção estética. Por concepção estética, reconheço os princípios de um movimento em que uma obra faça parte, os principais elementos que o tornam belo e a complexidade na sua produção, que seriam, por exemplo, a métrica, a rima e o ritmo para a poesia, ou o ritmo, a harmonia e a melodia para a música. Todo esse complexo que exige estudo, sensibilidade e criatividade para desenvolver-se. 

No que diz respeito ao conteúdo, ou seja, a ideia que essa obra apresenta ao mundo, existe em si, muito daquilo que esse movimento/artista vê desse mesmo mundo.

Na lógica de que sempre expressamos posições ideológicas em nossos discursos, mesmo que isso não seja consciente, a arte no contexto da ideia, produz e conduz sentidos sobre a realidade. Eis um tema que me intriga muito: produzir e reproduzir ideias. Em outras palavras, tudo já começou em algum lugar e vai parar em outro. Esse texto mesmo, está cunhado de sentidos previamente produzidos.

Para além, mas também contido na produção de sentidos, tomo ainda a liberdade de dizer que o produto artísticos, na tal da era diagnosticada por W.B., é produto de uma indústria. Explico: se é o mundo capitalista, em tudo haverá a reprodução de seu princípio. E, portanto, mesmo a arte contestadora, produzida para sublimar, se faz dentro de um universo em que está contida e que obedece a uma lógica dominante. E, logo, se traduz num elemento criador de expectativas, de ideias e de desejo, de consumir a ela própria, inclusive. 

E é assim que tudo sobrevive nesse sistema. Pois, se seu magma é o capital, tudo nele, de alguma forma, trabalhará assim, até mesmo quem constrói as perspectivas de transformação. Tendo em vista sua função instrumental de ruptura, a arte, o produto da cultura humana, carrega em si, na mesma medida, a capacidade de adaptação ao sistema. 

Penso essas coisas e, a mim, fica ainda mais difícil diagnosticar o nível de sublimação que há em determinada manifestação da cultura que autodetermina-se arte, senão pelo seu conteúdo e pelo nível de ruptura que ela apresenta sobre o sistema.

Veja cá que, é difícil dizer, sob princípios ideológicos revolucionários, o que deve ser sublime, sendo que, para nós, o relevante é o inteligível contestador, o carregado de ruptura e o significativamente consciente, ainda que, somente para existir, precise adaptar-se ao mundo em que ainda vivemos.