25 de janeiro de 2013

O que assisti em Argo


O cenário é o Irã de 1979. E Argo o apresenta como espaço/tempo para a construção de sentidos sobre a História. O recorte, a deposição do xá, apoiado pelos norte-americanos. O recurso, a flexão que dá verossimilhança ao relato histórico. Em outras palavras, toma-se a 'imparcialidade' como concepção para relatar a história de um agente americano que resgata diplomatas de uma cena de guerra no Irã.

Em princípio, parece colocar em xeque o mito do herói americano. Seis diplomatas, despidos do heroísmo tradicional, reconhecem o medo como parte do processo de luta pela sobrevivência. Fogem da sede da sua embaixada, que ora está tomada pelos manifestantes que derrubaram o poder político instaurado com apoio americano. Em voz e expressão, agentes da CIA fazem a autocrítica.

Constituído o primeiro impacto da mea culpa estadunidense, segue o ritmo tradicional. Autoridades desenvolvem um plano de resgate dos seis fugitivos. Além deles, uma massa de reféns americanos só serão devolvidos ao seu país com a extradição do xá, deposto pelo povo e salvaguardado pelo governo de Carter.

O argumento principal, a operação Argo, desenvolvida por um agente da CIA e dois comparsas do cinema hollywodiano. Travestido de cineasta que procura uma locação perfeita para seu filme de ação, Tony Mendez (Ben Affleck) busca resgatar o grupo do solo iraniano.

Argos apresenta o de sempre: o mito do herói e o sentido ocidental de civilização. O bom iraniano aparece no campo de refugiados, na personagem de Sahar. Empregada do consulado canadense e representação do Irã cordial, não comunga com os 'revolucionários e seus métodos', tampouco delata aos seus pares o engodo do embaixador canadense ao abrigar os fugitivos diplomatas da embaixada americana.

Embora a linguagem seja mais criteriosa, apresentando a realidade da operação menos pelos recursos técnicos e mais pela interpretação, Argos não é um filme que apresente novas concepções. No princípio, e de leve, sugere a aflição iraniana e reconhece, em tom abstrato, o erro americano. Mas, em seguida, lança uma saraivada de elementos prontos: herói-bom moço; América civilizada x oriente brutalizado; toda a humanidade nos diplomatas, nenhuma aos fanáticos. No limite, faz um reflexão da história intervencionista americana, sugerindo que se aprenda e com os erros passados para tomar decisões políticas presentes.

Gosto de filmes históricos, mas é necessário preparo para os discursos hegemônicos. Eles são deveras convincentes. Como em Argos. Como em todos os outros, em que as exceções são sempre especiarias da indústria cultural.

Imagem: Oene