28 de junho de 2014

Ausência

olhos abertos e sequer enxergo,
pelo corredor
ou pela escada

nem parte nem todo
nem lá fora nem aqui
dentro
por onde anda
quem partiu assim sem (de) mim

sem bilhete
nem recado com o porteiro
na geladeira
uma foto sob o imã
me faz esquecer
enfim

nem avesso
na blusa rasgada
nem a cama revirada
por onde ninguém dorme
na noite fria
nem desassossega
na de calor

nem retrato
seja ele 3x4
que identifique
a ausência
ou que justifique
a ignorância
de quem sejas

e nem estás aqui
pra me dizer

fico só,
com a minha impressão das coisas
nas paredes brancas
olhando quadros tortos
dizendo
menos
enquanto gritam
mais
enquanto envelhecem

é uma letra
sem harmonia
um samba
sem choro
uma noite
sem bom dia póstumo

não significamos
nada