8 de abril de 2015

Corpo apressado

O corpo caminha apressado, se mistura entre os corpos na penumbra do fim do dia. As buzinas ensurdecem a cidade, os automóveis lotam as ruas, a chuva fina e ácida é dor caudalosa que se expande da nuca às costas. Os corpos vão e vem, camuflando entre eles o corpo que caminha apressado, sem destino, repetindo o caminho de ontem, os passos de anteontem, as andanças dos anos, os trajetos todos que antecederam o fim de tarde chuvoso de hoje. O corpo caminha apressado, cheio de marcas, e sente escorrer a gota da chuva na nuca desnuda. Carcaça cansada, carregada de peso, das sacolas de supermercado, das sacolas do tempo. O corpo caminha apressado e não sabe para onde, sai na frente das ideias, toma as calçadas, atravessa a avenida barulhenta, não faz perguntas, não tem respostas. O corpo repete o velho trajeto na tarde chuvosa de hoje.