Eu pensei em acordar às oito horas da manhã. Passaria o
café, ligaria o computador. Teria dormido tranquilamente, na mesma candência em
que tomaria o café nem muito forte, nem muito fraco. A primeira caneca, a segunda.
Então escolheria um som, escreveria sobre o filme que assisti ontem, depois até
uma poesia. Conversaria com algumas pessoas no chat. Aquelas que dizem alguma
coisa. E passaria o resto da manhã pensando no que disseram e tentando
transformar essas coisas que li no que eu gosto de fazer: texto.
Depois, calmamente, eu iria para o trabalho. E lá o dia seria
como é. Um texto, dois. Uma foto, uma página da revista. E depois que a jornada
encerrasse, eu iria passeando pelo centro, encontrando gente, ouvindo mais coisas.
A avenida, o supermercado, a praça, o terminal de ônibus. O trânsito nem seria
tão irritante. Hoje, somente hoje, queria que tivesse sido assim.
Eu acordei às sete horas, a voz do neném diz que quer comer.
O apelo, em vão, de mais dez minutos, não se aplica ao tempo das crianças.
Amanhecer abrupto. Não sei quantas colheres de café coloquei no filtro.
Lembrei! A tarefa. A palavra tem que começar com sílaba “bi”.
Jornalistas, colegas, escrevam títulos com palavras que começam com “bi”! “Estamos
trabalhando a família do B”, diz a professora que não deve saber que não usamos
palavras que iniciam com a sílaba “bi” nos títulos. Até agora, só a palavra “bilhões”.
É... jornalista sabe ser chato. Então, tentei fechar a porta para seguir com o
texto do filme, quem sabe até uma poesia... Ô mãe, ô mãe, ô mãe. E lá se foi a
manhã. E esse texto aqui é um escarro, uma catarse. E daqui a pouco a almoço vai
interrompê-lo, e depois o uniforme, o lanche, a tarefa, o talco no tênis.
Depois, freneticamente, vamos pegar o ônibus, e depois outro, com
as mochilas. Caminhar atrasada até o trabalho e o trabalho e o trabalho e o
trabalho. E assim, vão sendo os dias todos até que alguma coisa mude. Enquanto
não mudar, a maioria das mulheres viverá assim. E as crianças também, que passam o tempo todo com as mães, mas as dividem o tempo todo com o mundo e toda essa correria. Ninguém consegue ter nada por inteiro. A vida é só fragmento.
Quero ser a mãe legal do fim de semana, não a mãe chata da quinta de manhã. Mas, enquanto cair sobre nós essa moral atrasada da "natureza desprendida das mães", que tudo suportam, nós seguiremos lavando pratos solitariamente e não escreveremos sobre filmes,
não faremos poesias. E não me venham com papo de superação. Quero só direitos na
mesma medida em que tenho deveres. Quero direitos iguais. Se não for a partir do
outro, que o estado olhe por nós e nos permita fazer poesia.